sexta-feira, 2 de junho de 2017

A foice, o martelo e eu


Há dias, a pretexto de uma crítica que fiz às ideias políticas de Miguel Urbano Rodrigues, numa nota respeitosa que escrevi por ocasião da sua morte, fui, nas redes sociais, zurzido de “anti-comunismo”. Só faltou acrescentarem “primário”...

A acusação de “anti-comunismo” está ligada, entre nós, a um certo período histórico. “Anti-comunistas” eram quantos, no pós-25 de abril, diabolizavam o PCP (apenas a este partido isto era aplicável), negando, implícita ou explicitamente, a sua legitimidade para integrar o espaço democrático. Para alguma esquerda, ser “anti-comunista” era, ao tempo, quase sinónimo de “fascista”, de defensor da ordem ditatorial anterior, que tinha no PCP como inimigo jurado.

Reconheço alguma razão nesse reflexo porque, já depois do 25 de abril, ainda houve gente que sonhou ilegalizar o PCP – e nunca poderemos agradecer suficientemente a coragem tida por um homem como Ernesto Melo Antunes, ao impor a recusa política dessa sinistra ideia, na sequência do 25 de novembro.

Porém, uma coisa é ser “anti-comunista”, nesse preciso registo, outra bem diferente é ter o direito a expressar, sem risco de insulto, uma discordância com a agenda política hoje titulada pelo PCP. No meu caso, combato muito daquilo que o PCP defende, acho obsoleto e retrógrado muito da sua agenda política, mas não admito que, por essa razão, alguém me qualifique de “anti-comunista”.

Faço parte de uma geração política que foi educada no respeito pelo “Partido”, na admiração pela bela história de luta dos comunistas portugueses, principais vítimas da repressão da ditadura, tempos em que com eles me senti bem solidário, a quem agradeço os sacrifícios que fizeram e que muito contribuíram para a nossa liberdade.

É claro que algum PCP teve tentações autoritárias no período do PREC, mas muitos de nós, por essa altura, também embarcámos em aventureirismos que, fazendo parte indissociável do nosso passado, fazem igualmente parte daquilo que foi a nossa aprendizagem política: a ideia de que não há nada mais parecido com uma ditadura de direita do que uma ditadura dita de esquerda. E não me obriguem a dar exemplos.

Lembrei-me de tudo isso, há dias, quando, com o presidente da República, mas também com o secretário-geral do PCP, participei numa justíssima homenagem a Mário Castrim, militante comunista. Durante essas horas, não me dei conta de que alguma distância, no plano das ideias políticas, me impedisse de apreciar o jornalista e o escritor que nos ajudou, com arte e ironia, a atravessar o "ar irrespirável” da ditadura. Alguém que, para retomar o belo poema de Manuel Gusmão (também ele comunista), citado na ocasião pelo ministro da Cultura, nos ajudou a encontrar,"contra todas as evidências em contrário, a alegria”.

8 comentários:

Luís Lavoura disse...

não admito que, por essa razão, alguém me qualifique de “anti-comunista”

Pois eu, não só admito como, de facto, me afirmo como anti-comunista.

Faço parte de uma geração política que foi educada no respeito pelo “Partido”

Eu faço parte de uma outra geração política, que foi educada a ler o "Arquipélago de Gulag" e a história da atuação dos comunistas durante a revolução e a guerra civil de Espanha. E, tal como o Francisco ficou marcado pela sua educação política, também eu estou marcado pela minha.

Anónimo disse...

Estamos todos marcados pela música anglo-saxónica.

Políticos são como as moscas.

Isabel Seixas disse...

a expressão radical de quem não está do meu lado está contra mim é de um reducionismo, tenho para mim que há excelentes profetas do exemplo, de respeito de direitos humanos como a liberdade de expressão, em todos os partidos.

o próprio facto de partir que deveria ser para repartir ,partilhar, multiplicar o básico para todos, pão,saúde/qualidade de vida, paz, educação, habitação, sem desunir ou dividir, está a tornar-se nalgumas mentes muito muito gaiola de obtusidades, acontece em todas as famílias de partidos, é no melhor partido cai a cola do fanatismo ideológico cego, que o 25 de abril nos livre do partido único...Credo!!...

E tem muita razão quem não se sente...

Além de que não tem nada de anticomunista a diferença de opinião...Era só o que faltava.

Joaquim de Freitas disse...

Que educação esta que ensinou a ler o "Arquipélago do Goulag "e não aquela que levou tantos Portugueses ao arquipélago de Cabo Verde.
Que educação esta que ensinou a guerra civil de Espanha, omitindo o nome daqueles que a provocaram com a "factura" de mais de um milhão de mortos.
Que educação esta que esqueceu de ensinar Bernanos e a ler o seu "Cemitério ao luar" e os poemas de Garcia Llorca.
Que sorte teve o senhor Luís Lavoura de poder "afirmar" aqui, neste blogue, dum autor democrata, o seu anti comunismo , ao qual tem todo o direito, enquanto que eu, até aos meus vinte anos nunca tive o direito, na minha Pátria, sob um
regime anti comunista, de "afirmar" as minhas convicções democratas e anti fascistas.
Pois bem , afirmo aqui alto e forte a minha marca indelével de anti fascista.

Anónimo disse...


Como não sou politizado devem chamar-me apenas escória humana ou até pária ou intocável. Enfim cada um com a sua canga.

Anónimo disse...

@Joquim de Freitas comentário 3 de junho 16:34

Sempre me disseram, desde a infância, que a educação era ensinada em casa e a instrução era ministrada na escola.
Todos os autores que enumerou nunca poderiam ter sido lidos na escola pois são textos eruditos. Se não os procurou mais tarde foi porque os assuntos não lhe eram interssantes.
Por isso nem todas as pessoas ao lê-los podiam tirar elacções necessárias a serem grandes democratas mas não queria dizer que fossem fascistas [no sentido dado antes de 1975]. Depois de 1975 já não interessa porque tudo quanto não fosse comunista era fascista mesmo que tivesse combatido os alemães em 1939-1945 com condecorações dadas por Inglaterra por bravura em combate.

Com os meus respeitos

Joaquim de Freitas disse...



O senhor anónimo de 4 de Junho- das 20:14 escreve: “a educação era ensinada em casa e a instrução era ministrada na escola. “

Parece-me bastante redutor de considerar que um homem será um cidadão com a educação recebida em casa e a instrução recebida na escola. E ainda, falta saber que educação e que nível de instrução recebeu…
A bagagem parece-me bastante ligeira para afrontar a sociedade contemporânea.

A minha opinião é que uma pessoa livre não é uma pessoa emancipada de toda as tutelas, politicas, religiosas, familiares e sociais. Mas é muito mais, uma pessoa que assume a herança da sua família, do seu país, e que o habita pelas suas próprias convicções;

A escola deve por conseguinte ajudar não a separar-se destas tutelas mas a compreendê-las, a impor uma certa distância em relação a elas para exercer a sua verdadeira liberdade pela escolha consciente, reflectida e respeitosa.

E quanto à democracia, não creio que é pela leitura dos “textos eruditos” que se “podem tirar elações” como escreve, para se ser grandes democratas”. O civismo, esse sim, deve ser ensinado na escola. A democracia, é ai que ela se aprende.

Mas há regimes políticos aos quais não interessa educar, formar, ensinar, instruir a massa popular; porque é mais fácil de governar a massa pouco educada…

Preferem viajantes sem bagagens…

Retribuo os seus respeitosos cumprimentos.

Adriano Vasconcelos disse...

Como fui educado,nos meus tempos de menino, por um Pai, que tendo o seu no Tarrafal, e soube da sua morte, lamento por vezes comentários "não serios" de amigos deste chat.Palestras, do Falecido Comunista "Tavares Rodrigues" vi muitas no Porto, de Oscar Acúrsio, de muitos outros democratas, falecidos, mas nos tempos que correm, ainda há muito anti-comunismo, e ao Dr, Seixas, ja li muitos dos seus comentarios que digo, nem sempre são de seriedade intelectual.Existem nas nossasTV,s plumitivos comentadores com lugar cativo na comunicação social social, e nunca perdem uma oportunidade para "desancar" em quem tem ideias anti-comunistas.Osenhor por vezes tem!