sexta-feira, 16 de junho de 2017

Macron ou a esperança



O processo político que se vive em França merece ser acompanhado com atenção. É curioso ver um sistema que, por várias décadas, funcionou numa lógica tradicional de alternância esgotar-se, no espaço de alguns meses, redundando numa solução atípica, muito personalizada, uma espécie de bonapartismo feito mais de esperança do que de coisas concretas.

É fácil concluir que os partidos tradicionais esgotaram a sedução das suas mensagens ou não souberam recompô-las com receitas programáticas capazes de convencer um eleitorado cansado de décadas de promessas não cumpridas, tituladas pelas caras de sempre. É da sociologia política primária concluir que o surgimento de alguém com uma mensagem otimista, uma figura politicamente pouco marcada, com um discurso mais tecnocrático do que ideológico, pode ter abalado esse equilíbrio rotineiro. Mas, na ausência de uma crise histórica profunda ou de um abalo político muito sério, fica ainda muito por explicar no fenómeno Macron. Ele não foi, como De Gaulle em 1958, resultado de uma “vaga de fundo”. Se François Fillon não se tivesse envolvido em algumas inesperadas trapalhadas, não o estaríamos hoje a analisar aqui.

A França é o país das ideologias, mas a nova situação política em que vive é precisamente marcada por uma aparente onda de “desideologização”, pelo retorno ao mito idílico do “nem esquerda nem direita”, um tropismo que, como é sabido, surge de quando em vez nos ciclos políticos, empurrado pela ideia de que o que é preciso é fazer as coisas certas, venham elas marcadas pelo ferrete de serem de esquerda ou de direita. Sem uma única exceção, a História provou que todas essas experiências redundaram em soluções conservadoras, e esta não será, com certeza, uma exceção à regra.

O tempo, porém, lá por França, está do lado de alguma esperança. Uma esperança que deu a Emmanuel Macron a vitória sólida sobre a candidata presidencial da extrema-direita, mas que não parece ter sido suficiente para mobilizar o voto, de forma muito empenhada, nas eleições legislativas subsequentes. Esta espécie gaulesa de “PRD” (os leitores com memória dos anos 80 portugueses devem lembrar-se) traz consigo a excitação da virgindade política mas também a imprevisibilidade de quadros ainda não testados na fogueira do quotidiano.

Macron é uma figura que não descura a coreografia, que traz estudada ao milímetro. Surge com uma vitalidade pausada e de um rictus de firmeza - uma “espécie de Sarkozy decente”, como dizia alguém –, parecendo ter algumas ideias bem claras, nomeadamente no terreno europeu, onde a afirmação da França é mais do essencial para o projeto coletivo. Com o tempo se verá melhor se o “macronisme” veio para ficar ou se ficará na história francesa como um epifenómeno passageiro.

9 comentários:

JS disse...

Sim. Tudo bem. Nada das usuais ideologias.
Mas o estado da Nação, actual, em França é mais fruto do "derrotar LePen a todo o custo" do que um qualquer enlevo político por Macron.
E o "macronismo" para sobreviver que vector vai imprimir a esta União Europeia ?.
A que previligiará a relação França-Reino Unido (apesar de um qualquer Brexit) ou a França-Alemanhã ?.
Re-acordar a (xenofóbica) França ou continuar este (artificialmente imposto) Reich.
De Gualle ou Petain ?. Escolha decisiva para Macron.

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

SR embaixador, O povo sempre VOTOU EM POESIA e se DEIXA GOVERAR EM VERSO.

Joaquim de Freitas disse...

Oh Senhor Embaixador : Macron, por quem votei, para escapar a Le Pen, é um Presidente “por défaut”…
O Senhor diz que se Fillon não tivesse tropeçado nas irregularidades … não estaríamos aqui a conversar… E tem razão.

Mas, tudo começou por uma campanha lamentável orquestrada de mão de mestre pelo maquiavélico Hollande, que “encomendou” aos média uma dupla operação:

--- “desdiabolizar Le Pen

---“ lançar o seu jockey Macron, afim de bloquear toda outra solução “progressista”, explicando porque não apoiou Hamon, e negativo contra Mélenchon.

Organizou assim o seu funeral: não foi candidato, acabou sem partido, porque explodiu o PS e a Direita ao mesmo tempo.

Desta maneira, a segunda volta, manobra grosseira da planificação da eleição de Macron, caricatura de democracia opondo “ a extrema direita” à extremo mercado” , deixou poucas opções aos democratas.

E assim Macron foi eleito por défaut e não sobre o seu programa, porque “só” 16% dos eleitores da primeira volta votaram pelo programa de Macron, quando mais de 80% dos eleitores de Mélenchon votavam pelo programa.

Amanhã não vou votar. Não tenho partido “disponível” , em acordo com as minhas convicções, na minha circunscrição. O “deputado” Macronista já foi eleito! Com 49,7% ...
Construir o “agora democrático” limitou-se a explicar a necessidade de coerência Presidente/Assembleia. O debate sumiu-se...

A maioria absoluta está garantida. Mas os 32% dos votos da primeira volta, obtida com uma abstenção superior a 51%, não auguram nada de bom, porque é obtida sem o povo.

Uma das razoes desta abstenção é a não adesão ao projecto de Macron. Com um tal nível de participação, a contestação social está na esquina…Como em 1936-1968-1995.

43% dos eleitores, com rendas superiores a 3 000 euros mensais votaram Macron.

Daqueles que têm menos de 1250 euros mensais - 25%- votaram FN e 17% Macron. Preocupante.

Resta-nos a conclusão do Senhor Embaixador : Esperança… Porque se a tal revolução prometida por Macron não acontecer, o voto Macron seria um puro “conservantismo social” das vantagens reconquistadas pela “burguesia”, face ao “sistema precário”, no quadro dum sistema imposto desde há 30 anos, o “Capitalismo mundializado”, cuja produção efectiva é o desenvolvimento sem fim das desigualdades e das violências que lhe são inerentes.

Ao ver os rostos sorridentes dos responsáveis do MEDEF, digo cá comigo que o “mercado”sonhava desde há muito de ter todos os poderes, na perspectiva de voltar para trás sobre todas as “vantagens sociais” do XX° século, tomando o controlo directo da economia, da politica e dos médias. Para esta gente, a única democracia possível é a “democracia de mercado” , e a “democracia de mercado” desconfia do povo. Nesta democracia, o mercado está acima de tudo e o povo deve deixar-se guiar…pela mão de Deus…
Normalmente, em França, isso termina pela Revolução.

Já há muito tempo que os governos saídos das eleições da V° Republica se encontram a contra corrente do povo real

Se a vitória eleitoral de Macron é incontestável, nada nos diz que esta “vitória” materialize
a da democracia porque, esta não se constrói sem o povo.

Domingo, pela primeira vez em 60 anos, não vou votar. Só dois partidos da direita restam na arena.

Anónimo disse...

Ai Ai Ai !!!!

Estaremos então a entrar num período de políticos não-politizados. WOW, onde tudo isto irá parar.

Anónimo disse...

Estimado Embaixador,

Ele há muitas questões! Questões terríveis: o macronismo, a abstenção!
Estamos a viver aqui uns tempos deveras curiosos, com esta vaga de fundo que já levou certos optimistas a apostar num segundo mandato de Macron... Outros, ainda, que se insurgem contra os efeitos perversos dessa vaga, particularmente nos bairros chiques, como no diplomático XVIème, onde os candidatos da direita dita tradicional podem vir a ser varridos da cena no próximo domingo. De facto, o tsunami macronista parece estar para durar, embora possam surgir, como é evidente, uma série de problemas que não podem ser ignorados.

O primeiro problema será o da instauração de uma espécie de regime de partido único, com 400 ou mais deputados da República em Marcha, num total de 577 assentos, com os socialistas reduzidos à expressão mais simples, "degolados e arruinados" como justamente afirmou o comentador Alain Duhamel. A direita tradicional também vai sofrer imenso nos próximos tempos, sendo assim forçada a alinhar com Macron. Este terá conseguido apanhar 2/3 do eleitorado socialista e quase outro tanto do eleitorado de centro direita. Acontece, ainda, que tanto a extrema direita, como a estrema esquerda, foram imensamente prejudicadas com a abstenção dos seus eleitores. E poderão surgir situações injustas, por se tratar de um sistema eleitoral maioritário a duas voltas.

O segundo problema é o da pouca preparação dos novos deputados, embora haja quem minimize esse facto dizendo que eles "vão aprender depressa" e que a França dispõe de um regime presidencialista, com um parlamento habitualmente marginalizado, desde os tempos de De Gaulle.

O terceiro problema visível será o do chamado diálogo social. Parece mais que provável que a CGT pró-comunista queira impedir as reformas em matéria de emprego, incluindo a revisão do Código do Trabalho que tem mais de 3000 páginas. Mas a CGT está em declínio, ao contrário da CFDT que é mais reformista. E os trotsquistas da Force Ouvrière dizem-se contentes, até ver, com a maneira como o governo de E. Philippe os tem recebido. Lembremos que apenas 8% dos trabalhadores franceses estão sindicalizados.

E temos, ainda, o problema da solidez governamental. Parece bem provável que o minstro centrista da Justiça, François Bayrou, seja obrigado a partir, devido à utilização fraudulenta de fundos do Parlamento Europeu que serviram para pagar os salários de alguns dos seus colaboradores. Revelações que surgiram na altura em que ele apresentava um projecto de "Moralização da Vida Política"...

Macron dispõe de uma margem de manobra importante, tanto mais que as perspectivas económicas para a França, apontadas pela OCDE e por outras instituições, parecem ser favoráveis. Mas o jovem presidente sabe muito bem que as perspectivas podem mudar rapidamente em função das conjunturas e que os resultados eleitorais não correspondem exactamente à composição sociológica do país.

Atenciosamente

Anónimo disse...

@ Anónnimo das 15:53

"com os socialistas reduzidos à expressão mais simples, "degolados e arruinados" como justamente afirmou o comentador Alain Duhamel."

Será que os socialistas franceses se pensam a aristocracia durante a revolução francesa face à "guillotine" .

"On aurait tout vu."

Anónimo disse...

Ele é o corte epistemológico como já escrevi há muito tempo. É por enquanto "soft" mas parece cada dia estar mais em marcha.

Vamos ver se os antigos ainda irão clamar pela a carbonária para resolver o problema destes modernos que nem sabem portar-se como "il le fallait" no parlamento.

Mas se bem me lembro, aqui em Portugal, os primeiros anos de A.R. também foi feita com pessoal que nunca tinha cheirado o poder e até elaboraram uma constituição que depois de alguns ajustamentos se encontra em vigor. E por isto, para alguns não veio nada de mal ao mundo.
Eu sei... era o tempo das ideologias que imperava, mas parece que há muito tempo estão em dificuldades por terem produzido muito e já não conseguirem escoar o produto.

Estamos mesmo num tempo de mudança.
Apertem os cintos que neste voo vai haver muita turbulência mas o destino será atingido, ou a bem ou a mal.

Anónimo disse...


Ao anónimo de 16 de junho de 2017 às 18:40

Não sei se os socialistas franceses se pensam na aristocracia face à guilhotina. O certo é que estão em maus lençóis. Mas assim já aconteceu noutros tempos e até pouco distantes, como em 2007 e 2008. Isto não impediu que Hollande fosse eleito em 2012 e obtivesse uma maioria confortável no parlamento, mas que veio a ser progressivamente desmantelada. Dizem e escrevem os entendidos que ainda é cêdo para enterrar o PS francês.

Ao anónimo de 17 de junho de 2017 às 02:05

De facto, há que apertar o cinto porque se espera uma 3a volta social e porque o Hollande deixou contas por pagar que vão ser devidamente incluídas no próximo orçamento Macron/Philippe.

Cumprimentos

Jolas disse...

Boa tarde Senhor Embaixador,

será que poderia enumera dois ou três exemplos da frase abaixo:

"Sem uma única exceção, a História provou que todas essas experiências redundaram em soluções conservadoras, e esta não será, com certeza, uma exceção à regra."

Obrigado,

João Santos